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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Natais diferentes I

O Natal da Minha Infância

Nasci numa aldeia que é hoje uma vila, situada em Portelo de Cambres, perto do Concelho de Lamego, numa quinta chamada Fonte da Costa. Vim a este mundo com as ajudas de uma parteira, a Dona Isaura, que era analfabeta, mas tinha muita experiência de vida. Naquele tempo, a maioria das mulheres tinha os seus filhos em casa; só em situações extremas é que eram levadas para o hospital.

Quanto à minha estrutura familiar, não foi muito bafejada pela sorte. O meu pai partiu deste mundo ainda muito jovem, tinha eu apenas um ano de idade.

A minha mãe, graças a Deus, durou um pouco mais. Era uma mulher de estatura baixa, forte, alegre, teimosa, mas com muito bom coração. Foram estas qualidades que a ajudaram a superar as dificuldades da vida. Naquela altura, não era fácil criar sozinhos oito filhos ainda pequenos. Não havia subsídios! Foi graças à ajuda da minha avó materna e aos meus padrinhos que viviam no Brasil que a minha mãe nos conseguiu proporcionar uma vida com alguma dignidade.

Vivi nesta quinta com a minha mãe e os meus sete irmãos até aos meus onze anos. Durante este tempo, nunca usufruí de uma casa luxuosa. Contudo, tinha já o conforto necessário para viver bem, desde água canalizada, casa de banho e móveis bonitos que se usavam naquela altura. Os vizinhos que residiam perto de nós viviam em condições menos favoráveis. Infelizmente, ainda havia muita pobreza.

A época do ano de que eu mais gostava, era o Natal! Não era por causa das prendas! Nem pensar! Não havia dinheiro para tal luxo. Gostava do Natal pelos valores que esta época me transmitia. A euforia que reinava na minha casa enchia o meu coração de alegria, desde a véspera ao dia de Natal. Cada um de nós tinha uma função a cumprir. A minha mãe tinha a tarefa mais difícil, que ela fazia questão de cumprir sozinha: a Ceia de Natal. Não nos faltava nada nesse dia. Havia todos os miminhos que fazem parte da ementa natalícia, desde as sobremesas (aletria, rabanadas, filhoses, arroz doce e leite creme) até aos pratos principais. Quanto aos salgadinhos, não podiam faltar os saborosos bolinhos de bacalhau, que só a minha mãe sabia fazer tão bem.

A azáfama começava logo a seguir ao almoço. A minha tarefa era segurar num alguidar grande de barro onde a minha mãe batia, com toda a sua força, a massa das filhoses. Depois de a massa levedar durante uma hora, ela ficava a tarde inteira a fazer os vários fritos (rabanadas, filhoses e os bolinhos de bacalhau). O que eu mais admirava nela era a sua determinação em nunca se deixar desanimar pelo cansaço de permanecer ali tantas horas de pé em frente àquele fogão.

Ainda na véspera de Natal, logo de manhã bem cedo, eu e a minha irmã Céu íamos buscar o musgo a uma floresta que ficava ainda afastada da nossa residência. Levávamos uma caixinha de cartão para o trazer inteirinho. Quando chegávamos a casa, a minha irmã começava a construir o presépio, com muita destreza e carinho. Há quarenta anos atrás, ainda não se falava muito em Árvore de Natal.

Os recursos utilizados na sua elaboração eram todos extraídos da natureza, como por exemplo o musgo, a areia, as palhinhas, e as pedrinhas. A minha irmã utilizava uma metodologia muito rigorosa na forma como o construía. Em primeiro lugar fazia a cabaninha e só depois o exterior que a rodeava. Depois de findar este processo, nós enfeitávamo-lo com as principais figuras religiosas. Todos os passos eram executados ao pormenor (pois era tudo feito manualmente). Quando o trabalho chegava ao fim, eu ficava tempos infinitos a observar aquela obra de arte que fazia inveja a qualquer artista plástico.

Na parte da tarde, as minhas irmãs mais velhas faziam outras actividades: umas preparavam a braseira para ir aquecendo a casa, pois não havia ainda aquecimento central, nem lareira com recuperador de calor; por outro lado as outras enfeitavam a mesa com o que tínhamos de melhor em termos de toalhas e louças.

Às vinte horas em ponto, a minha mãe tinha a consoada pronta. O jantar era o tradicional bacalhau cozido, acompanhado pelas couves portuguesas, cenouras, batatas e ovos cozidos. Também fazia parte da ementa a famosa açorda de bacalhau, que só a minha mãe comia. Os produtos hortícolas que consumíamos nestas alturas e durante o ano eram todos produzidos na nossa quinta. Tínhamos uma pequena agricultura de subsistência para sustentar a família, assim como um pequeno galinheiro, composto por galinhas, galos e patos.

Finalmente chegava o tão ansiado momento. A minha mãe sentava-se à cabeceira da mesa e ficava a observar o nosso comportamento irrequieto na hora de escolhermos o melhor lugar para nos sentarmos. Todos queríamos ficar perto da minha mãe. Durante o jantar, o estado de espírito dominante era a confraternização e a alegria. Afinal só nós, num total de nove, enchíamos aquela casa. A minha mãe olhava-nos com grande satisfação por nos ter todos juntos ao pé dela, naquela noite tão especial e, ainda, por nos proporcionar uma consoada farta, com todos os miminhos que apreciávamos.

Quando batiam as doze badaladas na torre da igreja, eu levantava-me da mesa e ia buscar o Menino Jesus ao Presépio. De forma ordeira, cada um de nós dava um beijinho no seu joelhinho. No final deste ritual, a minha mãe dava-nos um beijinho e desejava-nos um Feliz Natal.

Depois disso, como não havia prendas para distribuir, a minha mãe, mesmo cansada de um dia árduo de trabalho a preparar a Consoada, ainda tinha forças e paciência para nos contar as suas lindas histórias de Natal. Nós ouvíamo-la atentamente e ao mesmo tempo brincávamos aos confeites até cairmos no sono, completamente vencidos pelo cansaço.

Era assim “ O Natal da Minha Infância”. Não havia prendas, mas tínhamos o carinho e o amor da minha mãe.

Hoje, infelizmente, não é fácil incutir estes valores aos meus filhos. A publicidade, nesta época do ano é cada vez mais agressiva. Diariamente somos “bombardeados” com uma enchente de bens materiais, através dos vários meios de comunicação social, distorcendo-se, assim,“o verdadeiro espírito de Natal.

A minha mãe morreu no dia 22 de Dezembro de 1970 e, a partir desse ano, morreu, também, “O Natal da Minha Infância”.

22/11/2011, in O Natal da Minha Infância, de Margarida Costa

1 comentário:

Anónimo disse...
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