A quantas andamos?

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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Soneto de Fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Vinícius de Moraes
Saudades

Saudades! Sim... talvez... e porque não?...
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah! como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como pão!

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!

                     Florbela Espanca

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Um poema à sexta.

A Leitora

A leitora abre o espaço num sopro subtil.
Lê na violência e no espanto da brancura.
Principia apaixonada, de surpresa em surpresa.
Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco.
Ela fala com as pedras do livro, com as sílabas da sombra.

Ela adere à matéria porosa, à madeira do vento.
Desce pelos bosques como uma menina descalça.
Aproxima-se das praias onde o corpo se eleva
em chama de água. Na imaculada superfície
ou na espessura latejante, despe-se das formas,

branca no ar. É um torvelinho harmonioso,
um pássaro suspenso. A terra ergue-se inteira
na sede obscura de palavras verticais.
A água move-se até ao seu princípio puro.
O poema é um arbusto que não cessa de tremer.

António Ramos Rosa, in "Volante Verde"

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Semana da Leitura - o livro.

A um Livro  

No silêncio de cinzas do meu Ser
Agita-se uma sombra de cipreste,
Sombra roubada ao livro que ando a ler,
A esse livro de mágoas que me deste.

Estranho livro aquele que escreveste,
Artista da saudade e do sofrer!
Estranho livro aquele em que puseste
Tudo o que eu sinto, sem poder dizer!

Leio-o, e folheio, assim, toda a minh’alma!
O livro que me deste é meu, e salma
As orações que choro e rio e canto! ...

Poeta igual a mim, ai que me dera
Dizer o que tu dizes! ... Quem soubera
Velar a minha Dor desse teu manto! ...

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"

 Conta-nos o que encontraste num livro que parecia escrito para ti!

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Semana da Leitura - que livros são os nossos? Qual a sua função para nós?

Os Meus Livros

Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.

Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"

Os meus livros estiveram sempre ao meu lado quando precisei de companhia, de ânimo, de distração. Como se fossem amigos indiscutíveis, levaram-me à descoberta de mundos e à descoberta de novas leituras nas mesmas páginas. Porque um livro não muda mas nós sim. E refletimo-nos nos livros que lemos e nos sentidos que neles achamos. Nesta Semana da Leitura da ESFD, vamos também falar de livros. Que vos dizem os vossos livros? Contem-me!

Semana da Leitura

     Começa hoje na nossa escola a semana dedicada à leitura. Apesar de lermos todos os dias (não é verdade?), nesta semana vamos contatar com diferentes práticas de leitura: com a grande cooperação da Biblioteca e dos colegas do grupo de português, haverá atividades que nos remetem para livros e leitura, um pouco para todos os gostos. Podem consultar melhor o programa na escola, nos cartazes de divulgação espalhados por todo o lado, junto do professor de português ou no link da biblioteca. 
     Para além da tradicional exposição de trabalhos feitos em vários anos e turmas do terceiro ciclo (e que coexiste com a dos colegas de artes, a tão fantástica «Todos diferentes, todos iguais», sobre a unidade na diversidade que é a nossa Ferreira), haverá o primeiro concurso de ortografia (vá, atreve-te: como se soletra otorrinolaringologista??), o segundo concurso de leitura em línguas estrangeiras, dramatizações, declamações de poemas, debates (um deles cheio de convidados fantásticos) e sabe-se lá que mais surpresas podemos encontrar!Já agora, que sugestão de atividade deixam para a Semana da Leitura?

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Um poema à sexta.

Infância

Sonhos
enormes como cedros
que é preciso
trazer de longe
aos ombros
para achar
no inverno da memória
este rumor
de lume:
o teu perfume,
lenha
da melancolia.

Carlos de Oliveira, in 'Cantata'