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Um poema à sexta...

  Viagem     É o vento que me leva. O vento lusitano. É este sopro humano Universal Que enfuna a inquietação de Portugal. É esta fúria de loucura mansa Que tudo alcança Sem alcançar. Que vai de céu em céu, De mar em mar, Até nunca chegar. E esta tentação de me encontrar Mais rico de amargura Nas pausas da ventura De me procurar... Miguel Torga, in 'Diário XII'

Recomeçar

Recomeça.... Se puderes Sem angústia E sem pressa. E os passos que deres, Nesse caminho duro Do futuro Dá-os em liberdade. Enquanto não alcances Não descanses. De nenhum fruto queiras só metade. E, nunca saciado, Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar. Sempre a sonhar e vendo O logro da aventura. És homem, não te esqueças! Só é tua a loucura Onde, com lucidez, te reconheças... Miguel Torga          A propósito deste recomeço de vida que é o segundo período escolar, desejamos a todos os nossos leitores um feliz 2012, cheio de palavras e livros, cheio de textos, memórias e descobertas, tudo de bom, afinal, num ano já tão mal amado e tão mal fadado... Porque, como diz outro dos nossos poetas, «tudo vale a pena...» e viver vale sempre a pena, descobrir pessoas mesmo ao nosso lado, e palavras num livro ali escondido, mais umas brincadeiras e um pôr-do-sol... digam lá se não encontraremos, ao nosso ritmo, algo que nos agrade neste ainda pequ...

Natal visto por um poeta

I Nasce mais uma vez, Menino Deus! Não faltes, que me faltas Neste inverno gelado. Nasce nu e sagrado No meu poema, Se não tens um presépio Mais agasalhado. Nasce e fica comigo Secretamente, Até que eu, infiel, te denuncie Aos Herodes do mundo. Até que eu, incapaz De me calar, Devasse os versos e destrua a paz Que agora sinto, só de te sonhar. Miguel Torga, in Diário XV

Um poema à sexta.

Natal Um anjo imaginado, Um anjo diabético, atual, Ergueu a mão e disse: — É noite de Natal, Paz à imaginação! E todo o ritual Que antecede o milagre habitual Perdeu a exaltação. Em vez de excelsos hinos de confiança No mistério divino, E de mirra, e de incenso e ouro Derramados No presépio vazio, Duas perguntas brancas, regeladas Como a neve que cai, E breve como o vento Que entra por uma fresta, quezilento, Redemoinha e sai:  À volta da lareira Quantas almas se aquecem Fraternalmente? Quantas desejam que o Menino venha Ouvir humanamente O lancinante crepitar da lenha?

Solstício de inverno

NATAL Solstício de inverno. Aqui estou novamente a festejá-lo À fogueira dos meus antepassados Das cavernas. Neva-me na lembrança, E sonho a primavera Florida nos sentidos. Consciente da fera Que nesses tempos idos Também era, Imagino um segundo nascimento Sobrenatural Da minha humanidade. Na humildade Dum presépio ideal, Emblematizo essa virtualidade. E chamo-lhe Natal.   Miguel Torga (1982)

Um poema à sexta.

OUTONO Tarde pintada Por não sei que pintor. Nunca vi tanta cor Tão colorida! Se é de morte ou de vida, Não é comigo. Eu, simplesmente, digo Que há tanta fantasia Neste dia, Que o mundo me parece Vestido por ciganas adivinhas, E que gosto de o ver, e me apetece Ter folhas, como as vinhas. Miguel Torga