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Um poema à sexta...

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Aqui Aqui, deposta enfim a minha imagem,  Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,  No interior das coisas canto nua.  Aqui livre sou eu — eco da lua  E dos jardins, os gestos recebidos  E o tumulto dos gestos pressentidos,  Aqui sou eu em tudo quanto amei.  Não por aquilo que só atravessei,  Não pelo meu rumor que só perdi,  Não pelos incertos actos que vivi,  Mas por tudo de quanto ressoei  E em cujo amor de amor me eternizei.  Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Dia do Mar'

Concurso Literário - Prémio Fernando Carita

O Clube de Leitura “LER PARA Q?”, em articulação com o grupo de Português, organizou o primeiro Concurso Literário Prémio Fernando Carita durante os meses de fevereiro e março de 2014, em homenagem ao Poeta, Professor e Homem que tanto prestigiou a Escola Secundária Ferreira Dias. A entrega de prémios da primeira edição do Concurso Literário Prémio Fernando Carita realizou-se no passado dia três de julho. O Prémio Fernando Carita visa homenagear postumamente o poeta e professor da ESFD e pôr em destaque a criatividade literária de todos quantos queiram concorrer – alunos, professores, funcionários e pais e encarregados de educação – representantes da nossa Comunidade Educativa. Foi já publicada a edição digital dos textos premiados, ilustrados com pinturas selecionados, cujo url podem seguir mais abaixo!  Parabéns aos autores! Ler textos de autores que convivem diariamente connosco na Escola é, sem dúvida, um privilégio! https://esfdferreira.files.wordp...

25 de Abril, SEMPRE!!

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Um poema à sexta...

AGORA AS PALAVRAS Obedecem-me agora muito menos, as palavras. A propósito de nada resmungam, não fazem caso do que lhes digo, não respeitam a minha idade. Provavelmente fartaram-se da rédea, não me perdoam a mão rigorosa, a indiferença pelo fogo de artifício. Eu gosto delas, nunca tive outra paixão, e elas durante muitos anos também gostaram de mim: dançavam à minha roda quando as encontrava. Com elas fazia o lume, sustentava os meus dias, mas agora estão ariscas1, escapam-se por entre as mãos, arreganham os dentes se tento retê-las. Ou será que já só procuro as mais encabritadas2? Eugénio de Andrade, O Sal da Língua, 2.ª ed., Porto, Fundação Eugénio de Andrade, 1996 VOCABULÁRIO 1 ariscas – fugidias. 2 encabritadas – rebeldes.

Um poema à sexta...

Canção Para a Minha Filha Isabel Adormecer Quando Tiver Medo do Escuro Nem sombra nem luz Nem sopro de estrela Nem corpinhos nus De anjos à janela  Nem asas de pombos Nem algas no fundo Nem olhos redondos Espantados do mundo  Nem vozes na ilha Nem chuva lá fora Dorme minha filha Que eu não vou embora António Lobo Antunes -  com música de Vitorino, aqui

Um poema à sexta...

Os Amantes de Novembro Ruas e ruas dos amantes  Sem um quarto para o amor  Amantes são sempre extravagantes  E ao frio também faz calor  Pobres amantes escorraçados  Dum tempo sem amor nenhum  Coitados tão engalfinhados  Que sendo dois parecem um  De pé imóveis transportados  Como uma estátua erguida num  Jardim votado ao abandono  De amor juncado e de outono.  Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'

Um poema à sexta

Há no amor uma qualquer força mortífera Que põe os amantes um contra o outro, Bastará que a libertem; Há no amor uma qualquer força vital Que põe os amantes a favor um do outro, Bastará que a mantenham em cativeiro; Há no amor uma qualquer força inumana Que há-de preservar os amantes De sucumbirem nas margens um do outro, Bastará que a coloquem já onde o amor os não alcança.  Fernando Carita

Um poema à sexta...

Cerca de Grandes Muros Quem te Sonhas Cerca de grandes muros quem te sonhas.  Depois, onde é visível o jardim  Através do portão de grade dada,  Põe quantas flores são as mais risonhas,  Para que te conheçam só assim.  Onde ninguém o vir não ponhas nada.  Faze canteiros como os que outros têm,  Onde os olhares possam entrever  O teu jardim com lho vais mostrar.  Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,  Deixa as flores que vêm do chão crescer  E deixa as ervas naturais medrar.  Faze de ti um duplo ser guardado;  E que ninguém, que veja e fite, possa  Saber mais que um jardim de quem tu és -  Um jardim ostensivo e reservado,  Por trás do qual a flor nativa roça  A erva tão pobre que nem tu a vês...  Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro'

Um poema à sexta...

Encontro Felicidade, agarrei-te  Como um cão, pelo cachaço!  E, contigo, em mar de azeite  Afoguei-me, passo a passo...  Dei à minha alma a preguiça  Que o meu corpo não tivera.  E foi, assim, que, submissa,  Vi chegar a Primavera...  Quem a colher que a arrecade  (Há, nela, um segredo lento...)  Ó frágil felicidade!  — Palavra que leva o vento,  E, depois, como se a ideia  De, nos dedos, a ter tido  Bastasse, por fim, larguei-a,  Sem ficar arrependido...  Pedro Homem de Mello, in "Eu Hei-de Voltar um Dia"

Um poema à sexta...

Belo Belo Belo belo belo, Tenho tudo quanto quero. Tenho o fogo de constelações extintas há milênios. E o risco brevíssimo - que foi? passou - de tantas estrelas cadentes. A aurora apaga-se, E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora. O dia vem, e dia adentro Continuo a possuir o segredo grande da noite. Belo belo belo, Tenho tudo quanto quero. Não quero o êxtase nem os tormentos. Não quero o que a terra só dá com trabalho. As dádivas dos anjos são inaproveitáveis: Os anjos não compreendem os homens. Não quero amar, Não quero ser amado. Não quero combater, Não quero ser soldado. - Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples. Manuel Bandeira

Um poema à sexta...

O peso de haver o mundo O peso de haver o mundo Passa no sopro de aragem Que um momento o levantou, Um vago anseio de viagem Que o coração me toldou. Será que em seu movimento A brisa lembre a partida Ou que a largueza do vento Lembre o ar livre da ida? Não sei, mas subitamente Sinto a tristeza de estar O sonho triste que há rente Entre sonhar e sonhar. Bernardo Soares

Um poema à sexta

RECOMEÇAR Não importa onde você parou… em que momento da vida você cansou… o que importa é que sempre é possível e necessário “Recomeçar”. Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo… é renovar as esperanças na vida e o mais importante… acreditar em você de novo. Sofreu muito nesse período? foi aprendizado… Chorou muito? foi limpeza da alma… Ficou com raiva das pessoas? foi para perdoá-las um dia… Sentiu-se só por diversas vezes? é porque fechaste a porta até para os anjos… Acreditou que tudo estava perdido? era o início da tua melhora… Pois é…agora é hora de reiniciar…de pensar na luz… de encontrar prazer nas coisas simples de novo. Que tal Um corte de cabelo arrojado…diferente? Um novo curso…ou aquele velho desejo de aprender a pintar…desenhar…dominar o computador… ou qualquer outra coisa… Olha quanto desafio…quanta coisa nova nesse mundão de meu Deus te esperando. Tá se sentindo sozinho? besteira…tem tanta gente que você afastou com o seu “período de isolamento”… tem ta...

Imagens com livros 8

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Onde é que a leitura leva a tua imaginação?  Ao sabor do vento, do pensamento.  Onde vais tu chegar?  E por onde passas, nessa viagem sem horas marcadas, sem destino certo, só ao sabor da mente e do pensamento?  À alegria de viajar, cá dentro...  À satisfação de saber mais, de pensar e sonhar... Conta-me tu: onde te levam as palavras do livros que lês? Que palavras te trazem aqui? Imagem daqui

25 de Abril, sempre!

25 DE ABRIL Esta é a madrugada que eu esperava o dia inicial inteiro e limpo Onde emergimos da noite e do silêncio E livres habitamos a substância do tempo. Sophia de Mello Breyner Andresen

Metafísica

“Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...    Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é.    Mas porque a amo, e amo-a por isso,    Porque quem ama nunca sabe o que ama    Nem por que ama, nem o que é amar...” Alberto Caeiro
Saudades Saudades! Sim... talvez... e porque não?... Se o nosso sonho foi tão alto e forte Que bem pensara vê-lo até à morte Deslumbrar-me de luz o coração! Esquecer! Para quê?... Ah! como é vão! Que tudo isso, Amor, nos não importe. Se ele deixou beleza que conforte Deve-nos ser sagrado como pão! Quantas vezes, Amor, já te esqueci, Para mais doidamente me lembrar, Mais doidamente me lembrar de ti! E quem dera que fosse sempre assim: Quanto menos quisesse recordar Mais a saudade andasse presa a mim! Florbela Espanca

Ser Contracorrente...

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Liberdade Ai que prazer  Não cumprir um dever,  Ter um livro para ler  E não fazer!  Ler é maçada,  Estudar é nada.  Sol doira  Sem literatura  O rio corre, bem ou mal,  Sem edição original.  E a brisa, essa,  De tão naturalmente matinal,  Como o tempo não tem pressa...  Livros são papéis pintados com tinta.  Estudar é uma coisa em que está indistinta  A distinção entre nada e coisa nenhuma.  Quanto é melhor, quanto há bruma,  Esperar por D.Sebastião,  Quer venha ou não!  Grande é a poesia, a bondade e as danças...  Mas o melhor do mundo são as crianças,  Flores, música, o luar, e o sol, que peca  Só quando, em vez de criar, seca.  Mais que isto  É Jesus Cristo,  Que não sabia nada de finanças  Nem consta que tivesse biblioteca...                            ...

Natal visto por um poeta

I Nasce mais uma vez, Menino Deus! Não faltes, que me faltas Neste inverno gelado. Nasce nu e sagrado No meu poema, Se não tens um presépio Mais agasalhado. Nasce e fica comigo Secretamente, Até que eu, infiel, te denuncie Aos Herodes do mundo. Até que eu, incapaz De me calar, Devasse os versos e destrua a paz Que agora sinto, só de te sonhar. Miguel Torga, in Diário XV

Solstício de inverno

NATAL Solstício de inverno. Aqui estou novamente a festejá-lo À fogueira dos meus antepassados Das cavernas. Neva-me na lembrança, E sonho a primavera Florida nos sentidos. Consciente da fera Que nesses tempos idos Também era, Imagino um segundo nascimento Sobrenatural Da minha humanidade. Na humildade Dum presépio ideal, Emblematizo essa virtualidade. E chamo-lhe Natal.   Miguel Torga (1982)