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Onda Pina - um poema à sexta

A um Jovem Poeta Procura a rosa.  Onde ela estiver  estás tu fora  de ti. Procura-a em prosa, pode ser  que em prosa ela floresça  ainda, sob tanta  metáfora; pode ser, e que quando  nela te vires te reconheças  como diante de uma infância  inicial não embaciada  de nenhuma palavra  e nenhuma lembrança.  Talvez possas então  escrever sem porquê,  evidência de novo da Razão  e passagem para o que não se vê.  Manuel António Pina, in "Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança"

Onda Pina - poema à sexta

Lugares da Infância Lugares da infância onde  sem palavras e sem memória  alguém, talvez eu, brincou  já lá não estão nem lá estou.  Onde? Diante  de que mistério  em que, como num espelho hesitante,  o meu rosto, outro rosto, se reflecte?  Venderam a casa, as flores  do jardim, se lhes toco, põem-se hirtas  e geladas, e sob os meus passos  desfazem-se imateriais as rosas e as recordações.  O quarto eu não o via  porque era ele os meus olhos;  e eu não o sabia  e essa era a sabedoria.  Agora sei estas coisas  de um modo que não me pertence,  como se as tivesse roubado.  A casa já não cresce  à volta da sala,  puseram a mesa para quatro  e o coração só para três.  Falta alguém, não sei quem,  foi cortar o cabelo e só voltou  oito dias depois,  já o jantar tinha arrefecido.  E fico de novo sozinho,  na cama vazia, no quarto vazio.  Lá fora é de n...

Onda Pina - poema à sexta

Aos Filhos Já nada nos pertence,  nem a nossa miséria.  O que vos deixaremos  a vós o roubaremos.  Toda a vida estivemos  sentados sobre a morte,  sobre a nossa própria morte!  Agora como morreremos?  Estes são tempos de  que não ficará memória,  alguma glória teríamos  fôssemos ao menos infames.  Comprámos e não pagámos,  faltámos a encontros:  nem sequer quando errámos  fizemos grande coisa!  Manuel António Pina, in "Um Sítio onde Pousar a Cabeça"

Onda Pina - Poema à sexta

Amor como em Casa Regresso devagar ao teu  sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que  não é nada comigo. Distraído percorro  o caminho familiar da saudade,  pequeninas coisas me prendem,  uma tarde num café, um livro. Devagar  te amo e às vezes depressa,  meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,  regresso devagar a tua casa,  compro um livro, entro no  amor como em casa.  Manuel António Pina, in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"

Gigões e anantes

Gigões são anantes muito grandes. Anantes são gigões muito pequenos. Os gigões diferem dos anantes porque uns são um bocado mais outros são um bocado menos. Era uma vez um gigão tão grande, tão grande, que não cabia. – Em quê? – O gigão era tão grande que nem se sabia em que é que ele não cabia! Mas havia um anante ainda maior que o gigão, e esse nem se sabia se ele cabia ou não. Só havia uma maneira de os distinguir: era chegar ao pé deles e perguntar: Mas eram tão grandes que não se podia lá chegar! E nunca se sabia se estavam a mentir! Então a Ana como não podia resolver o problema arranjou uma teoria: xixanava com eles e o que ficava xubiante ou ximbimpante era o gigão, e o anante fingia que não. A teoria nunca falhava porque era toda com palavras que só a Ana sabia. E como eram palavras de toda a confiança só queriam dizer o que a Ana queria. MANUEL ANTÓNIO PINA O Têpluquê e outras histórias

Manuel António Pina (1943-2012)

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Manuel António Pina nasceu em 1943, no Sabugal, na Beira Alta; vivia no Porto desde os 17 anos numa casa com muitos gatos, que lhe davam material de sobra para os poemas. Durante a infância, foi-lhe difícil fazer amigos. Andou de terra em terra por causa da profissão do pai que era chefe das Finanças e também tinha o cargo de juiz das execuções fiscais. A família nunca chegava a ficar mais de seis anos em cada localidade. Foi o pai que o ensinou a ler e a escrever mesmo antes de ir para a escola e treinava a ler os títulos do jornal 1º de Janeiro . Desde os seis ou sete anos que escrevia poemas, que a sua mãe guardava, e embora só tivesse publicado o primeiro livro de poemas em 1974, começou a escrevê-lo em 1965. Apesar de ter pensado ir para a Academia Militar, licenciou-se em direito em Coimbra. Foi tendo vários empregos: nas Contribuições e Impostos, a fazer inquéritos de rua, agência de informações comerciais, na Comissão dos Vinhos Verdes e ainda foi vendedor e deu ...