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Um poema à sexta...

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Aqui Aqui, deposta enfim a minha imagem,  Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,  No interior das coisas canto nua.  Aqui livre sou eu — eco da lua  E dos jardins, os gestos recebidos  E o tumulto dos gestos pressentidos,  Aqui sou eu em tudo quanto amei.  Não por aquilo que só atravessei,  Não pelo meu rumor que só perdi,  Não pelos incertos actos que vivi,  Mas por tudo de quanto ressoei  E em cujo amor de amor me eternizei.  Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Dia do Mar'

Um poema à sexta...

blues da morte de amor já ninguém morre de amor, eu uma vez  andei lá perto, estive mesmo quase,  era um tempo de humores bem sacudidos,  depressões sincopadas, bem graves, minha querida,  mas afinal não morri, como se vê, ah, não,  passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,  emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,  ah, sim, pela noite dentro, minha querida.  a gente sopra e não atina, há um aperto  no coração, uma tensão no clarinete e  tão desgraçado o que senti, mas realmente,  mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,  eu nunca tive queda para kamikaze,  é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida,  saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,  e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.  há ritmos na rua que vêm de casa em casa,  ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.  mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha  no lusco-fusco da cançã...

Um poema à sexta...

AGORA AS PALAVRAS Obedecem-me agora muito menos, as palavras. A propósito de nada resmungam, não fazem caso do que lhes digo, não respeitam a minha idade. Provavelmente fartaram-se da rédea, não me perdoam a mão rigorosa, a indiferença pelo fogo de artifício. Eu gosto delas, nunca tive outra paixão, e elas durante muitos anos também gostaram de mim: dançavam à minha roda quando as encontrava. Com elas fazia o lume, sustentava os meus dias, mas agora estão ariscas1, escapam-se por entre as mãos, arreganham os dentes se tento retê-las. Ou será que já só procuro as mais encabritadas2? Eugénio de Andrade, O Sal da Língua, 2.ª ed., Porto, Fundação Eugénio de Andrade, 1996 VOCABULÁRIO 1 ariscas – fugidias. 2 encabritadas – rebeldes.

Um poema à sexta...

Canção Para a Minha Filha Isabel Adormecer Quando Tiver Medo do Escuro Nem sombra nem luz Nem sopro de estrela Nem corpinhos nus De anjos à janela  Nem asas de pombos Nem algas no fundo Nem olhos redondos Espantados do mundo  Nem vozes na ilha Nem chuva lá fora Dorme minha filha Que eu não vou embora António Lobo Antunes -  com música de Vitorino, aqui

Um poema à sexta...

Os Amantes de Novembro Ruas e ruas dos amantes  Sem um quarto para o amor  Amantes são sempre extravagantes  E ao frio também faz calor  Pobres amantes escorraçados  Dum tempo sem amor nenhum  Coitados tão engalfinhados  Que sendo dois parecem um  De pé imóveis transportados  Como uma estátua erguida num  Jardim votado ao abandono  De amor juncado e de outono.  Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'

Um poema à sexta

Há no amor uma qualquer força mortífera Que põe os amantes um contra o outro, Bastará que a libertem; Há no amor uma qualquer força vital Que põe os amantes a favor um do outro, Bastará que a mantenham em cativeiro; Há no amor uma qualquer força inumana Que há-de preservar os amantes De sucumbirem nas margens um do outro, Bastará que a coloquem já onde o amor os não alcança.  Fernando Carita

Um poema à sexta...

Deixem-me... Deixem-me viver o amor contra tudo que é vão Deixem-me ser batuque sem a eterna masturbação da guerra Deixem-me viver um amor que não caiba em nenhuma definição "profana" porque ao amor só caberá o infinito Jamais poderá ser circunscrito Quero um amor que seja respirado cantado e exaltado E então, só então serei feliz! Delmar Maia Gonçalves

Um poema à sexta...

Cerca de Grandes Muros Quem te Sonhas Cerca de grandes muros quem te sonhas.  Depois, onde é visível o jardim  Através do portão de grade dada,  Põe quantas flores são as mais risonhas,  Para que te conheçam só assim.  Onde ninguém o vir não ponhas nada.  Faze canteiros como os que outros têm,  Onde os olhares possam entrever  O teu jardim com lho vais mostrar.  Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,  Deixa as flores que vêm do chão crescer  E deixa as ervas naturais medrar.  Faze de ti um duplo ser guardado;  E que ninguém, que veja e fite, possa  Saber mais que um jardim de quem tu és -  Um jardim ostensivo e reservado,  Por trás do qual a flor nativa roça  A erva tão pobre que nem tu a vês...  Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro'

Um poema à sexta...

Encontro Felicidade, agarrei-te  Como um cão, pelo cachaço!  E, contigo, em mar de azeite  Afoguei-me, passo a passo...  Dei à minha alma a preguiça  Que o meu corpo não tivera.  E foi, assim, que, submissa,  Vi chegar a Primavera...  Quem a colher que a arrecade  (Há, nela, um segredo lento...)  Ó frágil felicidade!  — Palavra que leva o vento,  E, depois, como se a ideia  De, nos dedos, a ter tido  Bastasse, por fim, larguei-a,  Sem ficar arrependido...  Pedro Homem de Mello, in "Eu Hei-de Voltar um Dia"

Um poema à sexta...

O peso de haver o mundo O peso de haver o mundo Passa no sopro de aragem Que um momento o levantou, Um vago anseio de viagem Que o coração me toldou. Será que em seu movimento A brisa lembre a partida Ou que a largueza do vento Lembre o ar livre da ida? Não sei, mas subitamente Sinto a tristeza de estar O sonho triste que há rente Entre sonhar e sonhar. Bernardo Soares

Um poema à sexta...

Quantas vezes, Amor, me tens ferido? Quantas vezes, Amor, me tens ferido? Quantas vezes, Razão, me tens curado? Quão fácil de um estado a outro estado O mortal sem querer é conduzido! Tal, que em grau venerando, alto e luzido, Como que até regia a mão do fado, Onde o Sol, bem de todos, lhe é vedado, Depois com ferros vis se vê cingido: Para que o nosso orgulho as asas corte, Que variedade inclui esta medida, Este intervalo da existência à morte! Travam-se gosto, e dor; sossego e lida; É lei da natureza, é lei da sorte, Que seja o mal e o bem matiz da vida.

Um poema à sexta...

Eu, que sou feio... Eu, que sou feio, sólido, leal, A ti, que és bela, frágil, assustada, Quero estimar-te, sempre, recatada Numa existência honesta, de cristal. Sentado à mesa dum café devasso. Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura. Nesta Babel tão velha e corruptora, Tive tenções de oferecer-te o braço. E, quando socorreste um miserável, Eu que bebia cálices de absinto, Mandei ir a garrafa, porque sinto Que me tornas prestante, bom, saudável. «Ela aí vem!» disse eu para os demais; E pus-me a olhar, vexado e suspirando, O teu corpo que pulsa, alegre e brando, Na frescura dos linhos matinais. Via-te pela porta envidraçada; E invejava, - talvez não o suspeites!- Esse vestido simples, sem enfeites, Nessa cintura tenra, imaculada. Ia passando, a quatro, o patriarca. Triste eu saí. Doía-me a cabeça. Uma turba ruidosa, negra, espessa, Voltava das exéquias dum monarca. Adorável! Tu muito natural, Seguias a pensar no teu bordado; Avultava, num largo arborizado, Uma estátua de rei num pedes...

Um poema à sexta...

Cantiga de Amigo Nem um poema nem um verso nem um canto tudo raso de ausência tudo liso de espanto e nem Camões Virgílio Shelley Dante --- o meu amigo está longe e a distância é bastante. Nem um som nem um grito nem um ai tudo calado todos sem mãe nem pai Ah não Camões Virgílio Shelley Dante! --- o meu amigo está longe e a tristeza é bastante. Nada a não ser este silêncio tenso que faz do amor sozinho o amor imenso. Calai Camões Virgílio Shelley Dante: o meu amigo está longe e a saudade é bastante! Ary dos Santos

Um poema à sexta...

CANÇÃO ( Poema dedicado a Catarina Eufémia ) Na fome verde das searas roxas  passeava sorrindo Catarina.  Na fome verde das searas roxas  ai a papoula cresce na campina!  Na fome roxa das searas negras  que levas, Catarina, em tua fronte?  Na fome roxa das searas negras  ai devoravam os corvos o horizonte!  Na fome negra das searas rubras  ai da papoula, ai de Catarina!  Na fome negra das searas rubras  trinta balas gritaram na campina.  Trinta balas  te mataram a fome, Catarina. Papiniano Carlos

Um poema à sexta

RECOMEÇAR Não importa onde você parou… em que momento da vida você cansou… o que importa é que sempre é possível e necessário “Recomeçar”. Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo… é renovar as esperanças na vida e o mais importante… acreditar em você de novo. Sofreu muito nesse período? foi aprendizado… Chorou muito? foi limpeza da alma… Ficou com raiva das pessoas? foi para perdoá-las um dia… Sentiu-se só por diversas vezes? é porque fechaste a porta até para os anjos… Acreditou que tudo estava perdido? era o início da tua melhora… Pois é…agora é hora de reiniciar…de pensar na luz… de encontrar prazer nas coisas simples de novo. Que tal Um corte de cabelo arrojado…diferente? Um novo curso…ou aquele velho desejo de aprender a pintar…desenhar…dominar o computador… ou qualquer outra coisa… Olha quanto desafio…quanta coisa nova nesse mundão de meu Deus te esperando. Tá se sentindo sozinho? besteira…tem tanta gente que você afastou com o seu “período de isolamento”… tem ta...

Um poema à sexta...

Poesia ao nascer do dia Tu que dormes a noite na calçada de relento Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento És meu irmão amigo És meu irmão  E tu que dormes só no pesadelo do ciúme Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume E sofres o Natal da solidão sem um queixume És meu irmão amigo És meu irmão  Natal é em Dezembro Mas em Maio pode ser Natal é em Setembro É quando um homem quiser Natal é quando nasce uma vida a amanhecer Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher  Tu que inventas ternura e brinquedos para dar Tu que inventas bonecas e combóios de luar E mentes ao teu filho por não os poderes comprar És meu irmão amigo És meu irmão  E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei És meu irmão amigo És meu irmão  Natal é em Dezembro Mas em Mai...

Um poema à sexta.

Porque foi dia da mulher, hoje é dia de Florbela... Aqueles que me têm muito amor Não sabem o que sinto e o que sou... Não sabem que passou, um dia, a Dor À minha porta e, nesse dia, entrou. E é desde então que eu sinto este pavor, Este frio que anda em mim, e que gelou O que de bom me deu Nosso Senhor! Se eu nem sei por onde ando e onde vou!! Sinto os passos de Dor, essa cadência Que é já tortura infinda, que é demência! Que é já vontade doida de gritar! E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio, A mesma angústia funda, sem remédio, Andando atrás de mim, sem me largar! Atenção ao filme sobre a vida desta poetisa que estreou esta semana. Vale a pena ver !

Um poema à sexta.

Natal Um anjo imaginado, Um anjo diabético, atual, Ergueu a mão e disse: — É noite de Natal, Paz à imaginação! E todo o ritual Que antecede o milagre habitual Perdeu a exaltação. Em vez de excelsos hinos de confiança No mistério divino, E de mirra, e de incenso e ouro Derramados No presépio vazio, Duas perguntas brancas, regeladas Como a neve que cai, E breve como o vento Que entra por uma fresta, quezilento, Redemoinha e sai:  À volta da lareira Quantas almas se aquecem Fraternalmente? Quantas desejam que o Menino venha Ouvir humanamente O lancinante crepitar da lenha?

Um poema à sexta.

Este é o tempo Este é o tempo Este é o tempo Da selva mais obscura Até o ar azul se tornou grades E a luz do sol se tornou impura Esta é a noite Densa de chacais Pesada de amargura Este é o tempo em que os homens renunciam. Sophia de Mello Breyner in Mar Novo (1958)