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Um poema à sexta.

Adeus Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio. Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, gastámos as mãos à força de as apertarmos, gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis. Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro; era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar. Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes. E eu acreditava. Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis. Mas isso era no tempo dos segredos, era no tempo em que o teu corpo era um aquário, era no tempo em que os meus olhos eram realmente peixes verdes. Hoje são apenas os meus olhos. É pouco mas é verdade, uns olhos como todos os outros. Já gastámos as palavras. Quando agora digo: meu amor, já não se passa absolutamente nada. E no entanto, antes das palavras gastas, tenho a certeza...

Natal visto por um poeta

I Nasce mais uma vez, Menino Deus! Não faltes, que me faltas Neste inverno gelado. Nasce nu e sagrado No meu poema, Se não tens um presépio Mais agasalhado. Nasce e fica comigo Secretamente, Até que eu, infiel, te denuncie Aos Herodes do mundo. Até que eu, incapaz De me calar, Devasse os versos e destrua a paz Que agora sinto, só de te sonhar. Miguel Torga, in Diário XV

Um poema à sexta.

Natal Um anjo imaginado, Um anjo diabético, atual, Ergueu a mão e disse: — É noite de Natal, Paz à imaginação! E todo o ritual Que antecede o milagre habitual Perdeu a exaltação. Em vez de excelsos hinos de confiança No mistério divino, E de mirra, e de incenso e ouro Derramados No presépio vazio, Duas perguntas brancas, regeladas Como a neve que cai, E breve como o vento Que entra por uma fresta, quezilento, Redemoinha e sai:  À volta da lareira Quantas almas se aquecem Fraternalmente? Quantas desejam que o Menino venha Ouvir humanamente O lancinante crepitar da lenha?

Solstício de inverno

NATAL Solstício de inverno. Aqui estou novamente a festejá-lo À fogueira dos meus antepassados Das cavernas. Neva-me na lembrança, E sonho a primavera Florida nos sentidos. Consciente da fera Que nesses tempos idos Também era, Imagino um segundo nascimento Sobrenatural Da minha humanidade. Na humildade Dum presépio ideal, Emblematizo essa virtualidade. E chamo-lhe Natal.   Miguel Torga (1982)

Um poema à sexta.

Este é o tempo Este é o tempo Este é o tempo Da selva mais obscura Até o ar azul se tornou grades E a luz do sol se tornou impura Esta é a noite Densa de chacais Pesada de amargura Este é o tempo em que os homens renunciam. Sophia de Mello Breyner in Mar Novo (1958)

Um poema à sexta.

OUTONO Tarde pintada Por não sei que pintor. Nunca vi tanta cor Tão colorida! Se é de morte ou de vida, Não é comigo. Eu, simplesmente, digo Que há tanta fantasia Neste dia, Que o mundo me parece Vestido por ciganas adivinhas, E que gosto de o ver, e me apetece Ter folhas, como as vinhas. Miguel Torga

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O cavaleiro da Dinamarca, Sophia de Mello Breyner Andresen , Figueirinhas Esta é a história de um cavaleiro, na Dinamarca, para cuja família o Natal era a época mais especial do ano. Todos os anos as coisas que se passavam eram iguais mas maravilhosas. Até que um dia decidiu sair da sua casa  e ir em peregrinação até à Terra Santa, onde pretendia passar o Natal na gruta onde Cristo nasceu e onde rezaram os pastores, os Reis Magos e os Anjos. Despediu-se da mulher e dos filhos, dizendo-lhes que regressaria dali por dois anos. Partiu então numa Primavera. Como as viagens eram difíceis de realizar,  ir da Dinamarca até à Palestina era uma grande aventura. Seguimos com o cavaleiro na sua viagem, onde conhecemos lugares históricos e personagens interessantes. Desde a descrição da passagem das estações do ano e da celebração do Natal à narração de histórias quase mágicas, esta aventura leva-nos até junto de uma árvore de Natal... E mais não digo... El albero di Sabrina...