A quantas andamos?

Daisypath Christmas tickers

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Um poema à sexta.

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

                         Eugénio de Andrade

sábado, 24 de dezembro de 2011

Natal visto por um poeta

I

Nasce mais uma vez,
Menino Deus!
Não faltes, que me faltas
Neste inverno gelado.
Nasce nu e sagrado
No meu poema,
Se não tens um presépio
Mais agasalhado.

Nasce e fica comigo
Secretamente,
Até que eu, infiel, te denuncie
Aos Herodes do mundo.
Até que eu, incapaz
De me calar,
Devasse os versos e destrua a paz
Que agora sinto, só de te sonhar.

Miguel Torga, in Diário XV

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Um poema à sexta.

Natal

Um anjo imaginado,
Um anjo diabético, atual,
Ergueu a mão e disse: — É noite de Natal,
Paz à imaginação!
E todo o ritual
Que antecede o milagre habitual
Perdeu a exaltação.

Em vez de excelsos hinos de confiança
No mistério divino,
E de mirra, e de incenso e ouro
Derramados
No presépio vazio,
Duas perguntas brancas, regeladas
Como a neve que cai,
E breve como o vento
Que entra por uma fresta, quezilento,
Redemoinha e sai: 


À volta da lareira
Quantas almas se aquecem
Fraternalmente?
Quantas desejam que o Menino venha
Ouvir humanamente
O lancinante crepitar da lenha?

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Solstício de inverno

NATAL

Solstício de inverno.
Aqui estou novamente a festejá-lo
À fogueira dos meus antepassados
Das cavernas.
Neva-me na lembrança,
E sonho a primavera
Florida nos sentidos.
Consciente da fera
Que nesses tempos idos
Também era,

Imagino um segundo nascimento
Sobrenatural
Da minha humanidade.
Na humildade
Dum presépio ideal,
Emblematizo essa virtualidade.
E chamo-lhe Natal.
 

Miguel Torga (1982)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Um poema à sexta.

Este é o tempo

Este é o tempo
Este é o tempo 
Da selva mais obscura 

Até o ar azul se tornou grades 
E a luz do sol se tornou impura 

Esta é a noite 
Densa de chacais 
Pesada de amargura 

Este é o tempo em que os homens renunciam. 



Sophia de Mello Breyner
in Mar Novo (1958) 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Um poema à sexta.

OUTONO
Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há tanta fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.

Miguel Torga

Sugestões de leitura 2

O cavaleiro da Dinamarca, Sophia de Mello Breyner Andresen, Figueirinhas


Esta é a história de um cavaleiro, na Dinamarca, para cuja família o Natal era a época mais especial do ano. Todos os anos as coisas que se passavam eram iguais mas maravilhosas. Até que um dia decidiu sair da sua casa  e ir em peregrinação até à Terra Santa, onde pretendia passar o Natal na gruta onde Cristo nasceu e onde rezaram os pastores, os Reis Magos e os Anjos. Despediu-se da mulher e dos filhos, dizendo-lhes que regressaria dali por dois anos. Partiu então numa Primavera. Como as viagens eram difíceis de realizar,  ir da Dinamarca até à Palestina era uma grande aventura. Seguimos com o cavaleiro na sua viagem, onde conhecemos lugares históricos e personagens interessantes. Desde a descrição da passagem das estações do ano e da celebração do Natal à narração de histórias quase mágicas, esta aventura leva-nos até junto de uma árvore de Natal... E mais não digo...

Aconselhado aos alunos mais novos (mas pode sempre ser lido por qualquer pessoa, porque é uma obra de referência)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Natais diferentes II

      Natais diferentes terão os nossos alunos aqui na Ferreira. Obviamente, numa escola tão grande, temos alunos de diversas etnias, cuja importância dada ao Natal varia.
        Por outro lado, há a questão da constituição das famílias; em famílias reconstituídas haverá a diferença entre passar a noite com o pai ou com a mãe e respetivas famílias. Há sempre avós, cuja presença é uma garantia de normalidade em dias mais complicados, que ajudam a serenar ânimos e corações.
       Depois, a «crise»; com aspas por ter tantas interpretações. Pouco dinheiro para prendas mas também pouca disponibilidade para mimos, em muitos casos. Gostaria que deixassem aqui nos comentários algumas «imagens» do vosso Natal. Também para trazer até nós o espírito de partilha próprio da época e que parece custar a aparecer.
       Para mim, enquanto professora de língua portuguesa,especialmente, porque os meus meninos me «dizem» (escrevem...) que gostariam de um Natal com a família toda reunida, com prendas e, especialmente, com muita alegria e coisas boas para comer. E eu pergunto-me «e não será a isso que estes meninos têm direito? Haverá coisa que pareça mais simples de realizar?». Ajudem-me lá, vocês, meninas e rapazes que passam  o ano connosco: que fazem vocês para terem um Natal feliz?

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Natais diferentes I

O Natal da Minha Infância

Nasci numa aldeia que é hoje uma vila, situada em Portelo de Cambres, perto do Concelho de Lamego, numa quinta chamada Fonte da Costa. Vim a este mundo com as ajudas de uma parteira, a Dona Isaura, que era analfabeta, mas tinha muita experiência de vida. Naquele tempo, a maioria das mulheres tinha os seus filhos em casa; só em situações extremas é que eram levadas para o hospital.

Quanto à minha estrutura familiar, não foi muito bafejada pela sorte. O meu pai partiu deste mundo ainda muito jovem, tinha eu apenas um ano de idade.

A minha mãe, graças a Deus, durou um pouco mais. Era uma mulher de estatura baixa, forte, alegre, teimosa, mas com muito bom coração. Foram estas qualidades que a ajudaram a superar as dificuldades da vida. Naquela altura, não era fácil criar sozinhos oito filhos ainda pequenos. Não havia subsídios! Foi graças à ajuda da minha avó materna e aos meus padrinhos que viviam no Brasil que a minha mãe nos conseguiu proporcionar uma vida com alguma dignidade.

Vivi nesta quinta com a minha mãe e os meus sete irmãos até aos meus onze anos. Durante este tempo, nunca usufruí de uma casa luxuosa. Contudo, tinha já o conforto necessário para viver bem, desde água canalizada, casa de banho e móveis bonitos que se usavam naquela altura. Os vizinhos que residiam perto de nós viviam em condições menos favoráveis. Infelizmente, ainda havia muita pobreza.

A época do ano de que eu mais gostava, era o Natal! Não era por causa das prendas! Nem pensar! Não havia dinheiro para tal luxo. Gostava do Natal pelos valores que esta época me transmitia. A euforia que reinava na minha casa enchia o meu coração de alegria, desde a véspera ao dia de Natal. Cada um de nós tinha uma função a cumprir. A minha mãe tinha a tarefa mais difícil, que ela fazia questão de cumprir sozinha: a Ceia de Natal. Não nos faltava nada nesse dia. Havia todos os miminhos que fazem parte da ementa natalícia, desde as sobremesas (aletria, rabanadas, filhoses, arroz doce e leite creme) até aos pratos principais. Quanto aos salgadinhos, não podiam faltar os saborosos bolinhos de bacalhau, que só a minha mãe sabia fazer tão bem.

A azáfama começava logo a seguir ao almoço. A minha tarefa era segurar num alguidar grande de barro onde a minha mãe batia, com toda a sua força, a massa das filhoses. Depois de a massa levedar durante uma hora, ela ficava a tarde inteira a fazer os vários fritos (rabanadas, filhoses e os bolinhos de bacalhau). O que eu mais admirava nela era a sua determinação em nunca se deixar desanimar pelo cansaço de permanecer ali tantas horas de pé em frente àquele fogão.

Ainda na véspera de Natal, logo de manhã bem cedo, eu e a minha irmã Céu íamos buscar o musgo a uma floresta que ficava ainda afastada da nossa residência. Levávamos uma caixinha de cartão para o trazer inteirinho. Quando chegávamos a casa, a minha irmã começava a construir o presépio, com muita destreza e carinho. Há quarenta anos atrás, ainda não se falava muito em Árvore de Natal.

Os recursos utilizados na sua elaboração eram todos extraídos da natureza, como por exemplo o musgo, a areia, as palhinhas, e as pedrinhas. A minha irmã utilizava uma metodologia muito rigorosa na forma como o construía. Em primeiro lugar fazia a cabaninha e só depois o exterior que a rodeava. Depois de findar este processo, nós enfeitávamo-lo com as principais figuras religiosas. Todos os passos eram executados ao pormenor (pois era tudo feito manualmente). Quando o trabalho chegava ao fim, eu ficava tempos infinitos a observar aquela obra de arte que fazia inveja a qualquer artista plástico.

Na parte da tarde, as minhas irmãs mais velhas faziam outras actividades: umas preparavam a braseira para ir aquecendo a casa, pois não havia ainda aquecimento central, nem lareira com recuperador de calor; por outro lado as outras enfeitavam a mesa com o que tínhamos de melhor em termos de toalhas e louças.

Às vinte horas em ponto, a minha mãe tinha a consoada pronta. O jantar era o tradicional bacalhau cozido, acompanhado pelas couves portuguesas, cenouras, batatas e ovos cozidos. Também fazia parte da ementa a famosa açorda de bacalhau, que só a minha mãe comia. Os produtos hortícolas que consumíamos nestas alturas e durante o ano eram todos produzidos na nossa quinta. Tínhamos uma pequena agricultura de subsistência para sustentar a família, assim como um pequeno galinheiro, composto por galinhas, galos e patos.

Finalmente chegava o tão ansiado momento. A minha mãe sentava-se à cabeceira da mesa e ficava a observar o nosso comportamento irrequieto na hora de escolhermos o melhor lugar para nos sentarmos. Todos queríamos ficar perto da minha mãe. Durante o jantar, o estado de espírito dominante era a confraternização e a alegria. Afinal só nós, num total de nove, enchíamos aquela casa. A minha mãe olhava-nos com grande satisfação por nos ter todos juntos ao pé dela, naquela noite tão especial e, ainda, por nos proporcionar uma consoada farta, com todos os miminhos que apreciávamos.

Quando batiam as doze badaladas na torre da igreja, eu levantava-me da mesa e ia buscar o Menino Jesus ao Presépio. De forma ordeira, cada um de nós dava um beijinho no seu joelhinho. No final deste ritual, a minha mãe dava-nos um beijinho e desejava-nos um Feliz Natal.

Depois disso, como não havia prendas para distribuir, a minha mãe, mesmo cansada de um dia árduo de trabalho a preparar a Consoada, ainda tinha forças e paciência para nos contar as suas lindas histórias de Natal. Nós ouvíamo-la atentamente e ao mesmo tempo brincávamos aos confeites até cairmos no sono, completamente vencidos pelo cansaço.

Era assim “ O Natal da Minha Infância”. Não havia prendas, mas tínhamos o carinho e o amor da minha mãe.

Hoje, infelizmente, não é fácil incutir estes valores aos meus filhos. A publicidade, nesta época do ano é cada vez mais agressiva. Diariamente somos “bombardeados” com uma enchente de bens materiais, através dos vários meios de comunicação social, distorcendo-se, assim,“o verdadeiro espírito de Natal.

A minha mãe morreu no dia 22 de Dezembro de 1970 e, a partir desse ano, morreu, também, “O Natal da Minha Infância”.

22/11/2011, in O Natal da Minha Infância, de Margarida Costa

Sugestões de leitura

Os alunos pedem-nos sugestões sobre os livros a ler. A seu tempo ficarão aqui sugestões específicas, muitas delas dos próprios alunos. Entretanto, fica o link da lista de livros recomendados pelo Plano Nacional de Leitura. É preciso não esquecer que está organizado cronologicamente e que primeiro vêm os livros recomendados aos mais novos. Os alunos do terceiro ciclo e do secundário têm de ser mais pacientes e ir andando na lista. Poderá ser uma boa oportunidade para recordar títulos já lidos! Boas leituras!

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Recomeçar nem sempre é fácil (ou vale mais tarde do que nunca?)...

De facto, depois de uma longa ausência esperamos estar de volta para acompanhar com leituras o resto deste ano letivo. A escolha deste primeiro de dezembro não foi assim tão inocente; é o dia em que se comemora a reconquista da independência de Portugal face a Espanha, é o dia que marca uma data importante para um dos países mais antigos da Europa. Parece que nos esquecemos muito de coisas importantes em alturas de crise mas nunca nos deveríamos esquecer de que, sendo um país antigo e de fortes tradições, deveríamos ter orgulho de quem somos: possuidores de uma das línguas mais faladas no mundo, detentores de usos e costumes que conservamos com gosto (e sem lhes dar muito valor...) e com características geográficas únicas.
Sempre gostei de viajar mas sempre achei que esse gosto tem a ver com o facto de saber que regressar a Portugal está implícito, regressar a casa faz parte do gosto da descoberta de novos mundos. E porque fomos pioneiros na descoberta de um mundo alargado, acolhemos outros povos sem muitas reservas. Somos reservados mas amigáveis; sombrios mas orgulhosos; temos as mais belas paisagens e uma língua cheia de sons complicados que nos dão acesso a quase todos os sons das outras. Bons comunicadores, falamos de mais. Temos segredos que todos conhecem e partilhamos o que temos com boa vontade, na maioria das vezes. E temos escritores e poetas únicos. Além disso, somos curiosos, inquisitivos. Não se deixem convencer de que os portugueses são apenas preguiçosos e pessimistas. Vamos começar por ler, por partilhar leituras e acrescentemos o partilhar de vivências, como se fossemos livros abertos! Bem vindos de novo ao blogue da Ferreira dedicado aos livros, onde vamos passar Dias a ler...imagem aqui